A DEFUNTA BARBADA
O ser humano e muito dificil de entender mesmo... O racinha dificil essa nossa! Encara a morte de tao diversas maneiras que so vendo.
E aquele dito popular: "So deu valor quando perdeu", entra como uma maxima neste determinado assunto.
Eu mesma so cheguei a compreender minha avo depois da morte dela. Sempre a amei, respeitei e ate a tive como amiga e confidente... naquelas tardes sem fim sentadas na varanda!... mas compreende-la, ai sao outros quinhentos. So aconteceu depois de sua morte.
Minha vo sempre fora muito vaidosa, andava impecavel: maquiagem, bolsa, joias, oculos...tudo combinando. Dentro de sua bolsa era obrigatorio: um batom, lencinhos de papel, um terco, um espelho e logico, nao podia deixar de levar, um lapis preto de olho, para 'retocar' os cabelos brancos que 'apontavam' naquela cabeleira perfeitamente pintada pela sua tinta preferida - Koleston, castanho medio.
Depois que vovo morreu eu fui morar com ela. E por ser muito vaidosa vivia pegando no meu pe. Tambem eu era maloqueira mesmo! E era tanto "menina passa um oleozinho de mutamba nesse cabelo pra ver se une esse fua", "E vai sair sem bolsa?", " Coloque um 'rugezinho' nesse rosto pra ver se fica mais coradinha", "E e de se sair sem batom?!", "vai acabar ficando no barricao porque os 'home' vao olhar e vao achar que voce e uma mulher sem dignidade!"... e por ai vai...
Morar com ela significava que eu tinha que ajuda-la sempre a manter-se tao bela. Minha tarefa era fazer-lhe as sobrancelhas, bigode e tirar uns pelinhos chatos que insistiam em 'brotar' no seu queixo. Por muitas vezes era obrigada a arrancar com a pinca algum cabelo branco que surgia nos seus cilios (o que me dava uma sensacao horrivel, mas tudo bem) o que importava e que ninguem visse que em algum dia, em algum lugar do corpo dela, houvera um cabelo branco.
Quando terminava a minha tarefa semanal ela sempre dizia: "quando eu morrer faca as minhas sobrancelhas, meu bigode e minha barba...porque a pior coisa que existe no mundo e uma defunta barbada!". Eu achava a maior graca!
Foram tantas semanas ouvindo aquilo...
Ate que um certo dia, num certo hospital a vi perder a luta contra o cancer.
Depois das burocracias de reconhecimento do estado 'morte', nao e que me vi de pinca na mao, executando, pela ultima vez, aquela tarefa semanal. E a cada pelinho, memorias e mais memorias passavam pela minha cabeca, pior do que carrinho de formula um no circuito de Interlagos.
Passou-se tanto tempo, mas mesmo assim todos os dias, nem que seja ao menos por um segundo, penso na minha avo.
Porque nossa dignidade vai muito alem dessa vida, nao e Dona Carmelita?
E aquele dito popular: "So deu valor quando perdeu", entra como uma maxima neste determinado assunto.
Eu mesma so cheguei a compreender minha avo depois da morte dela. Sempre a amei, respeitei e ate a tive como amiga e confidente... naquelas tardes sem fim sentadas na varanda!... mas compreende-la, ai sao outros quinhentos. So aconteceu depois de sua morte.
Minha vo sempre fora muito vaidosa, andava impecavel: maquiagem, bolsa, joias, oculos...tudo combinando. Dentro de sua bolsa era obrigatorio: um batom, lencinhos de papel, um terco, um espelho e logico, nao podia deixar de levar, um lapis preto de olho, para 'retocar' os cabelos brancos que 'apontavam' naquela cabeleira perfeitamente pintada pela sua tinta preferida - Koleston, castanho medio.
Depois que vovo morreu eu fui morar com ela. E por ser muito vaidosa vivia pegando no meu pe. Tambem eu era maloqueira mesmo! E era tanto "menina passa um oleozinho de mutamba nesse cabelo pra ver se une esse fua", "E vai sair sem bolsa?", " Coloque um 'rugezinho' nesse rosto pra ver se fica mais coradinha", "E e de se sair sem batom?!", "vai acabar ficando no barricao porque os 'home' vao olhar e vao achar que voce e uma mulher sem dignidade!"... e por ai vai...
Morar com ela significava que eu tinha que ajuda-la sempre a manter-se tao bela. Minha tarefa era fazer-lhe as sobrancelhas, bigode e tirar uns pelinhos chatos que insistiam em 'brotar' no seu queixo. Por muitas vezes era obrigada a arrancar com a pinca algum cabelo branco que surgia nos seus cilios (o que me dava uma sensacao horrivel, mas tudo bem) o que importava e que ninguem visse que em algum dia, em algum lugar do corpo dela, houvera um cabelo branco.
Quando terminava a minha tarefa semanal ela sempre dizia: "quando eu morrer faca as minhas sobrancelhas, meu bigode e minha barba...porque a pior coisa que existe no mundo e uma defunta barbada!". Eu achava a maior graca!
Foram tantas semanas ouvindo aquilo...
Ate que um certo dia, num certo hospital a vi perder a luta contra o cancer.
Depois das burocracias de reconhecimento do estado 'morte', nao e que me vi de pinca na mao, executando, pela ultima vez, aquela tarefa semanal. E a cada pelinho, memorias e mais memorias passavam pela minha cabeca, pior do que carrinho de formula um no circuito de Interlagos.
Passou-se tanto tempo, mas mesmo assim todos os dias, nem que seja ao menos por um segundo, penso na minha avo.
Porque nossa dignidade vai muito alem dessa vida, nao e Dona Carmelita?
