Thursday, March 16, 2006

A DEFUNTA BARBADA

O ser humano e muito dificil de entender mesmo... O racinha dificil essa nossa! Encara a morte de tao diversas maneiras que so vendo.
E aquele dito popular: "So deu valor quando perdeu", entra como uma maxima neste determinado assunto.
Eu mesma so cheguei a compreender minha avo depois da morte dela. Sempre a amei, respeitei e ate a tive como amiga e confidente... naquelas tardes sem fim sentadas na varanda!... mas compreende-la, ai sao outros quinhentos. So aconteceu depois de sua morte.
Minha vo sempre fora muito vaidosa, andava impecavel: maquiagem, bolsa, joias, oculos...tudo combinando. Dentro de sua bolsa era obrigatorio: um batom, lencinhos de papel, um terco, um espelho e logico, nao podia deixar de levar, um lapis preto de olho, para 'retocar' os cabelos brancos que 'apontavam' naquela cabeleira perfeitamente pintada pela sua tinta preferida - Koleston, castanho medio.
Depois que vovo morreu eu fui morar com ela. E por ser muito vaidosa vivia pegando no meu pe. Tambem eu era maloqueira mesmo! E era tanto "menina passa um oleozinho de mutamba nesse cabelo pra ver se une esse fua", "E vai sair sem bolsa?", " Coloque um 'rugezinho' nesse rosto pra ver se fica mais coradinha", "E e de se sair sem batom?!", "vai acabar ficando no barricao porque os 'home' vao olhar e vao achar que voce e uma mulher sem dignidade!"... e por ai vai...
Morar com ela significava que eu tinha que ajuda-la sempre a manter-se tao bela. Minha tarefa era fazer-lhe as sobrancelhas, bigode e tirar uns pelinhos chatos que insistiam em 'brotar' no seu queixo. Por muitas vezes era obrigada a arrancar com a pinca algum cabelo branco que surgia nos seus cilios (o que me dava uma sensacao horrivel, mas tudo bem) o que importava e que ninguem visse que em algum dia, em algum lugar do corpo dela, houvera um cabelo branco.
Quando terminava a minha tarefa semanal ela sempre dizia: "quando eu morrer faca as minhas sobrancelhas, meu bigode e minha barba...porque a pior coisa que existe no mundo e uma defunta barbada!". Eu achava a maior graca!
Foram tantas semanas ouvindo aquilo...
Ate que um certo dia, num certo hospital a vi perder a luta contra o cancer.
Depois das burocracias de reconhecimento do estado 'morte', nao e que me vi de pinca na mao, executando, pela ultima vez, aquela tarefa semanal. E a cada pelinho, memorias e mais memorias passavam pela minha cabeca, pior do que carrinho de formula um no circuito de Interlagos.
Passou-se tanto tempo, mas mesmo assim todos os dias, nem que seja ao menos por um segundo, penso na minha avo.
Porque nossa dignidade vai muito alem dessa vida, nao e Dona Carmelita?

8 Comments:

Blogger Que chita bacana! said...

que engracado e triste!
pois, nao e a morte a mais democratica de todas as coisas!?

6:59 AM  
Blogger taciana said...

Lembro muito de Dona Carmelita. Ela era uma pessoa doce, meiga, tinha um tom de voz sempre calmo. Como lembro dela...
Em cada linha do seu texto tem porções de nobres sentimentos.
Beijos

7:53 PM  
Blogger Um taquin de pan said...

Sentimentos: tudo o que me resta!

9:43 PM  
Blogger zadda said...

Monica é muito legal teu blog....satisfeita, Mongol!!!!

4:15 PM  
Blogger zadda said...

tu tem que contar as aventuras de zazumi e cia....

4:16 PM  
Blogger zadda said...

Quando lembro de D.Carmelita, só lembro de coisas boas...principalmente do seu cozido, eita!!!! eu saia suanda da casa dela!!!!

4:18 PM  
Blogger Um taquin de pan said...

Zadda mongol,
Nao me lembra do cozido nao, pois tenho desejo daquele cozido desde quando eu tava gravida de Hannah!
beijo

7:25 PM  
Anonymous Marianne said...

Doida, também executava essetipo de missão para minha avó, a da barba, etc, com a diferença é que os cabelos dela, completamente brancos, a gente pintava de azul em dias de festa com uma tinta aí solúvel em água. Fashion não?
Adorei a história da "mulher sem dignidade". Realmente: a gente adolescente maloqueira ainda vá lá, mas depois de velha, sair sem baton, nem morrrrta!!! :P

8:31 PM  

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